A Sincronicidade de Jung
- 2 de nov. de 2025
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Esta semana foi pautada por sincronicidades. O termo “sincronicidade” foi desenvolvido pelo psiquiatra suíço e fundador da psicologia analítica, na primeira metade do século XX, e assenta na premissa de que existem coincidências significativas que parecem estar carregadas de sentido, mas que não têm relação causal direta - “uma coincidência significativa com conexão acausal”.
A ideia nasceu da experiência clínica de Jung, uma vez que, repetidamente, pacientes relatavam coincidências “estranhas” ligadas aos seus processos internos como sonhos que se materializavam em eventos, e Jung percebeu que a linguagem simbólica da psique parecia ecoar no mundo externo (o mundo interno e o externo parecem “alinhar-se” de forma simbólica); um exemplo clássico deste fenómeno é pensar em alguém com quem não falamos há muito tempo e essa pessoa envia-nos uma mensagem, ou telefona, nesse exato momento. Neste exemplo não há causa, mas o sentido vivido é real.
Jung, como discípulo de Freud, baseou a sua prática a partir de uma perspetiva psicanalista, recorrendo aos elementos do consciente/inconsciente, aos sonhos, bem como a conceitos como o inconsciente coletivo e arquétipos, para construir a sua teoria compreensiva acerca dos processos mentais e do comportamento humano. Assim, este desafiou a visão puramente racionalista, defendendo que a psique humana não está isolada; esta participa de um campo maior — o inconsciente coletivo — e, ocasionalmente, esse campo parece “sincronizar” experiências internas e externas. Foi, então, a partir desta perspetiva analista, que Jung propôs que para além da relação causa → efeito, existe uma outra forma de ligação entre eventos: o significado simbólico; para este, a sincronicidade acontece quando um estado interno (pensamento, emoção, sonho) coincide com um evento externo de forma simbólica. A sincronicidade, torna-se, então, uma ponte entre o psicológico e o fenómeno “externo”, quase como se a psique e o mundo fossem espelhos momentâneos um do outro, e compreende 3 características-chave: uma coincidência improvável , ligação pelo significado, não pela causa e um forte impacto (subjetivo) em quem a vivencia.
“A sincronicidade é onde a psicologia encontra poesia e onde o racional dá a mão ao mistério.”
No decorrer desta semana, nos vários encontros profissionais e sociais que tive, apercebi-me de que, sem razão aparente ou esforço nesse sentido, algumas destas interações traziam à superfície, invariavelmente, a temática da aceitação. Na esfera do meu desenvolvimento pessoal, confesso que a aceitação tem sido um tema difícil de trabalhar e que me pede uma atenção constante, esforço e revisitação. Rapidamente me apercebi que, neste momento em que me encontro, algo na minha psique está a pedir atenção - é como que um eco repetido, havendo um processo psicológico em curso a querer emergir para a consciência.
Antes de avançar, gostaria de ressalvar que aceitação não é resignação, aceitação não é “ficar calado e levar”, desistir, conformar-se nem passar pano no que dói; aceitação é sim parar de lutar com o que já é, é olhar a realidade como esta realmente é, é tirar o ego do volante e deixar a verdade entrar - aceitação é o momento em que deixamos de desperdiçar energia a querer que o passado, ou o momento atual, fosse diferente e começamos a agir a partir da realidade atual que está ao nosso alcance de mudar, e não da fantasia.
Das pessoas extraordinárias com quem tenho o prazer de me cruzar, permanece um sentimento de profunda gratidão e vénia ao espírito; são encontros verdadeiramente sagrados, que se nos mantivermos atentos e abertos, de alma e coração, conseguimos alcançar a compreensão da sua profundidade e a riqueza do seu significado; pessoas que nos dizem exatamente o que precisamos sem nós próprios sabermos que precisávamos de ouvir, mensagens que ressoam connosco e ecoam profundamente na nossa alma, histórias partilhadas que nos relembram a dimensão intrinsecamente espiritual do ser humano e que traz à consciência as ligações simbólicas que tão visceralmente sentimos… São momentos de conexão humana pelos quais me sinto extremamente grata e os quais me relembram da sacralidade da existência, a intuição de um tecido orgânico que tudo contém, conecta e sustém. Quando temos a clareza de espírito e a abertura, da mente e do coração, para prestarmos atenção a estes pequenos, e fugazes, rasgos de vislumbre da nossa humanidade e transpessoalidade, estamos a entrar em contacto com as sincronicidades que a vida nos oferece a todo o momento, o segredo para as experimentar é apenas prestar atenção!
Quando um tema se torna central através de encontros sincronísticos, há geralmente três camadas a emergir:
A consciência percebe um padrão — “isto está a repetir-se”.
O inconsciente empurra um conteúdo que quer ser integrado.
O Eu profundo (Self, na linguagem junguiana) oferece oportunidades para expansão.
Assim, no que respeita à temática que os eventos sincronísticos me trouxeram esta semana, posso dizer que aceitar algo — dentro ou fora de nós — é um ato de integração psíquica, pois é a queda da resistência que nos separa de nós mesmos. Na verdade, quando praticamos a aceitação, libertamos energia que se encontra presa na resistência, o nosso corpo descontrai, as nossas decisões tornam-se mais claras e até desvendamos caminhos anteriormente desconhecidos. É, desta forma, que a aceitação se torna num portão para a ação sábia e não para a passividade — em muitas tradições, a aceitação é um ato espiritual: é o momento em que deixamos de lutar com a vida e começamos a dançar com ela. Esta aceitação pode referir-se a uma verdade sobre nós mesmos, sobre alguém, sobre uma situação que não podemos mudar, sobre um ciclo que terminou, ou sobre uma versão nossa que já não nos serve.
Então, creio que neste momento a vida está a tentar-me dizer que “Chegou a hora de aceitar algo que tens evitado — e crescer a partir disso”. Assim, chegando aqui, a próxima escolha é da nossa responsabilidade: continuar a resistir ou sentarmo-nos com a verdade e deixá-la transformar-nos! Por hoje eu já fiz a minha escolha, e tu já fizeste a tua?



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